"Em Devoradores de Estrelas (2026), o professor Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda sozinho em uma nave espacial, sem memória e a anos-luz da Terra. Ele descobre ser o único sobrevivente de uma missão desesperada para salvar o Sol — e a humanidade — de parasitas cósmicos que consomem energia, precisando usar ciência e uma amizade inesperada para evitar a extinção"
Talvez este texto possua mais perguntas do que respostas...
"Qual o sentido da vida?" Quantas vezes já ouvimos essa frase? Talvez no mesmo patamar das famosas frases "quem somos, de onde viemos, para onde vamos", mas enquanto estas últimas buscam um sentido material ou físico, a primeira é puramente emocional e existencial. Por qual motivo você acorda todos os dias? Pelo quê vale a pena viver, lutar, sofrer, trabalhar, estudar...? O que te move, motiva, estimula? Estamos aqui para emagrecer e pagar boletos? Até que ponto nosso ego nos controla?
Imagine ser um cientista, e sua tese de doutorado, a razão pelo qual você se dedicou por uma vida inteira, ser refutada ou mesmo ridicularizada por toda a comunidade científica? E o pior, depois descobrir que você realmente estava errado? Não se trata apenas de um fracasso acadêmico/profissional, mas sim de você se sentir um fracassado. Para muitos cientistas/pesquisadores/acadêmicos, ter uma tese inédita aprovada, uma patente, uma publicação internacional ou se tornar uma citação/referência é não apenas o ápice da carreira, mas muitas vezes o objetivo principal da sua vida.
E quando isso não sai como esperado, como lidar com a frustração? Esse mundo acadêmico não é apenas difícil. É competitivo e cruel. Não há um suporte pedagógico durante a graduação, mestrado, doutorado. Ninguém te prepara para o "se não deu certo". Você apenas é reprovado, descartado, demitido, esquecido. Isso quando não se torna a referência de como não fazer ou a imagem da derrota.
O personagem do filme resolve recalcular a rota. Ser professor de ensino fundamental/médio. Trabalhar com crianças. Possivelmente uma das melhores decisões tomadas. Aproveitar o conhecimento, sem pressão, sem competição, sem apontamentos ou julgamentos, em um ambiente mais lúdico, inocente (embora muito esperto) - sem querer romantizar o ensino infantil, que também deve ser extremamente desafiador, ainda mais nos dias atuais. Mas muitas vezes a paixão de um cientista ou professor é a felicidade em compartilhar, em ensinar, em se sentir útil transmitindo um pouco do conhecimento adquirido.
Conhecendo mais do nosso personagem, sabemos que ele não tem "ninguém". Não possui família, parentes próximos, animais de estimação. O filme não se aprofunda se foi uma decisão focada para o trabalho, ou se também se tratava de um fracasso relacionado a relacionamentos. E quando você não tem mais nada, nem ninguém, nem um objetivo, mas ainda assim valoriza sua vida? O que você faz? Vai pro espaço? Pra quem vive sozinho aqui na Terra, pelo menos lá aparentemente teriam menos chateações...
O problema para nosso protagonista é que ele não foi pro espaço a passeio ou só pra mudar os ares (com o perdão do trocadilho). Ele foi lá para salvar a Terra. Literalmente. O filme poderia ter nos levado para a famosa "jornada do herói", mas tem um acerto gigantesco ao mostrar durante o longa que sua aventura espacial não se tratou de um ato altruísta, heroico ou salvador. Mas já que ele esta lá e tem um serviço a fazer, que se faça bem-feito. Afinal, ele embarcou nessa viagem por ter o conhecimento técnico necessário para a missão.
Mas aí o filme realmente mostra a que veio. No meio de tantos filmes memoráveis sobre viagens espaciais, o foco não foi na solidão, na colonização, no drama, na tecnologia ou mesmo em batalhas. O foco, o trunfo e o triunfo, foi a amizade. De uma união por objetivos em comum a uma cumplicidade emocional rara e invejada. Sem pieguismo, romance, drama. Sem nenhum tipo de exagero, ideologia, representatividade. Apenas um sentimento nobre, verdadeiro, o que nos faz "humanos" (ou uma pedra consciente, no caso. Aliás, uma pedra pode ganhar um Oscar????). É quando descobrimos que o sentido da vida não apenas está em nós, mas também no outro. Quando a emoção chega na medida exata, que extrapola a tela e cumpre seu propósito de te fazer pensar e refletir sobre valores.
Não é objetivo deste texto dar spoilers. Mas preciso soltar algumas palavras-chave para finalizar. Chega um momento em que o personagem precisa tomar aquela decisão crucial. Mas - novamente - a história acerta em cheio ao abordar esta decisão de forma diferente, pessoal. Digamos que o "objetivo central" da viagem tenha sido cumprido, e você tem alternativas de finalizar sua obrigação principal. Nesse caso, o dilema se torna voltar pra casa ou ajudar alguém. Voltar pra casa significaria o quê? Ele poderia pensar que iria voltar como o salvador do mundo, obter finalmente o reconhecimento profissional que merecia e tanto almejou no passado e até provar sua tese acadêmica. Isso o faria feliz? Por outro lado, conhecendo o mundo como é hoje, não seria errado imaginar que - caso retornasse - suas ações e descobertas seriam totalmente escondidas da humanidade e ele virasse uma queima de arquivo. E, ainda mais, ele poderia muito bem pensar “d@ne-se, esse mundo superficial não me merece”, viver a própria vida e deixar esse povo pra lá. Afinal, ninguém ia saber se sua missão deu certo ou não. Mas ele optou por fazer o certo, ser uma pessoa boa, fazer o bem sem olhar a quem, e ter a consciência tranquila.
O que importa é que, ao final, após suas ações e escolhas racionais, mas repletas de sentimentos, ao menos o personagem conseguiu saber, sentir e viver nossa pergunta inicial. A sensação de paz na alma, liberta de todo o ego, dogmas, imposições e pressão da sociedade, fazendo o que gosta, ao lado de amigos. Se esse é o sentido da vida, ou o segredo da felicidade, por que para tantos de nós isso é uma realidade tão distante?

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