Crítica: A pele de Vênus

Adaptação para o cinema da peça teatral homônima (La Vénus à la Fourrure), que apresenta a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que se desespera para encontrar uma atriz principal para sua nova peça. Após um improdutivo dia de audições, uma jovem atriz chamada Vanda (Emmanuelle Seigner) aparece no último momento e logo os dois se envolvem em uma relação de dominação e submissão. Dirigido por Roman Polanski.

A pele de Vênus é baseado em uma peça criada por David Ives para a Broadway que, por sua vez, é baseada no livro de Leopold von Sacher-Masoch (nome que deu origem ao termo Sado-Masoquismo) sobre obsessão sexual. O filme em si, aliás, é exatamente sobre a montagem dessa peça, na qual o diretor está enfrentando problemas para encontrar sua Vênus, até que uma misteriosa atriz de nome Vanda (mesmo nome da protagonista da peça) o convence a fazer um teste para o papel.

Dois atores. Um único cenário. 96 minutos em que somos espectadores de uma conversa/encenação entre os personagens. Se os primeiros minutos parecerem cansativos, não se deixe abater. É como um assunto em uma roda de amigos que começa meio morno e vai se tornando cada vez mais interessante ou envolvente, ao ponto que você poderia passar horas ouvindo aquela história sem perceber o tempo passar. 

Para os amantes do cinema de arte e do teatro, é simplesmente imperdível. Uma aula de metalinguagem. A interpretação e entrega dos atores é tamanha que você realmente não consegue mais identificar quando estão conversando ou quando estão ensaiando a peça e quando separar os atores dos personagens. Os cortes de cena são tão sutis que em alguns momentos parece que determinada conversa ou ato foi realizado em apenas uma tomada. Fora que, na minha opinião, tudo fica ainda mais bonito falando em francês.



À medida que o ensaio avança, o que seria um simples teste de elenco com uma atriz aparentemente despreparada se torna um jogo de egos, uma batalha de gêneros e um conflito de ideais sobre amor, sexo, feminismo e sociedade, que se estende até o clímax final, aonde nos damos conta da perfeição com que o conto foi adaptado, dirigido e encenado, ao percebermos como sutilmente o jogo virou, e o lado dominante se tornou dominador. 

Talvez esse seja um dos poucos casos de aproveitar melhor o filme caso não conheça a obra de referência. Se você já leu ou já sabe do que se trata a peça, deve ficar satisfeito com a adaptação. Mas se não conhecia (o meu caso), será muito bom se surpreender com os rumos que o ensaio vai tomando, e perceber como um plano de vingança feminino pode ser ao mesmo tempo sensual, inteligente e arrebatador.  Não apenas o personagem foi envolvido e dominado. Nós também fomos. 

Um último recado para os mais conservadores: apesar da sinopse sugerir algo "a mais", o filme é bem mais comportado do que muita novela por aí. Mais uma prova que a sensualidade não está apenas na exposição, mas sim também na suposição e insinuação.



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